miércoles, junio 22, 2005

Carlos Barbarito: Andrea Miranda, imagens do humano

O retrato é, excetuando-se o instantâneo, a mais comum das fotografias. Cada período da história do meio, se comparado com outras artes, oferece um estilo hegemônico e poucas são as obras que, ao longo do tempo, conseguem quebrar essa hegemonia. Em geral o panorama é quase monótono apenas variando certas poses e outros elementos como a expressão, a roupa, a localização e a composição (não muito para que a fotografia continue dentro do território do aceitável).


Porém, por sorte, há exceções a regra e de vez em quando alguém se atreve a ir mais além do esperado e do habitual, como David Octavius Hill e Robert Adamson, os quais são citados em livros, e que já em 1843 e 1844 expressavam uma maneira de retrato não pictórico mas sim direto, capaz de expressar caracteres, e que me atrevo a qualificá-los como pioneiros de um modo de fotografia. Uma fotografia que prefere o real, solitária exceção para aqueles dias, cujo valor se amplia se levarmos em conta as limitações técnicas da época. A lista continua com o genial Nadar, que captava pessoas e não representações de pessoas, autor de um inesquecível retrato de Baudelaire, do qual se desprende, como no resto de suas obras, marcada vitalidade, ainda que sempre haja um fundo de estúdio cinza e escuro. Do outro lado do oceano, Julia Margaret Cameron, contemporânea do francês, foi a primeira a trazer a um primeiro plano a complexa psicologia de seus personagens, utilizou para isso objetivos de grande distância focal. Stieglitz, já então no século XX, foi o autor de um retrato de Georgia O¨Keefe, figura de grande atração e modelo quase insuperável, que é um entre centenas ao longo de vinte anos de vida em comum, fruto de sua obsessão por detalhes ao fotografar. Entretanto, é Paul Strand, o autor dos retratos que aqui interessam, o autor da interessante questão : fora do estúdio é possível encontrar retratos significativos? (ou foi Lisette Model?. Aqui peço aos leitores mais informação a respeito). O certo é que Strand tirava fotos de pessoas que encontrava casualmente, na rua, para detectar nelas reações imediatas. Logo adotou um estilo direto e aberto até conseguir obras de marcante intensidade. Seu trabalho é base para fotógrafos imediatamente posteriores, Kertész e Cartier-Bresson, entre outros. Não quero esquecer, nesta curta resenha, Diane Arbus, cujos anões, nudistas, gigantes, retardados mentais e fenômenos circenses obrigam a uma imediata e comprometida resposta do espectador: compreensão ou rejeição.


Andrea Miranda empreende, em sua primeira mostra individual , "Rostros del más acá" (Universidad Autónoma de Sinaloa, México, Março de 2001) , um caminho contraditório: por onde quase todos transitam, oferece uma quantidade mínima de obras que escapam dos moldes de cada momento histórico. E assume o risco, mesmo que não o diga por humildade , com a capacidade necessária para conceder a cada uma de duas obras uma marca pessoal, diferente. Ela adota um olhar direto e elegante, como no caso de Nadar, nos proporciona imagens de pessoas e não representações de pessoas. Seus homens e mulheres, seguindo o exemplo de uma faceta de Richard Avedon, não têm imagem pública, não ocupam as primeiras páginas ou telas televisivas, são pessoas comuns, pertencem a determinados grupos étnicos, são os esquecidos, os marginalizados. São, no seu caso particular, seres humanos de um país, México, com uma ou outra exceção, em um determinado tempo, o atual.

Fotografias em branco e preto. Lembro-me da frase de um personagem de um filme de Wenders:... o branco e o preto remetem ao essencial. Palavras mais, palavras menos - a memória é caprichosa - , esta afirmação se ajusta a obra de Andrea Miranda. O que sentir se a autora foi até o mais profundo do ser humano, frente a esse homem que sustenta em sua mão um pulso decapitado, dessa família mestiça ou dessa mulher que coloca rolinhos, "ruleros" dizemos na Argentina, no cabelo da menina?

A arte é maravilhosa e freqüentemente estranha. Nestas fotografias há beleza, tremor , angústia, esperança e também, algo indefinido que nos escapa, incompreensível. Andrea Miranda tem estilo, personalidade, domínio da técnica e amplas possibilidades de expressão. O assunto que ouvi em um documentário sobre Noel Coward, é tocar a nota exata. Arte do músico, do plástico, do fotógrafo e que Andrea Miranda leva a sério com precisão e decisão.



Tradução de Ana María Rodriguez González.

Publicado en Etcetera, numéro 15, mai 2004.